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“SINAIS E SOMBRAS DO IMPÉRIO LISNAVE - Margueira”
Tudo era grandioso na Lisnave, os 300 mil metros quadrados do estaleiro, com a maior doca seca do mundo, os superpetroleiros que cruzavam quase diariamente o Tejo para serem reparados ou reconstruídos na Margueira e o sentimento de pertença dos seus cerca de 9000 trabalhadores a uma das maiores obras de construção naval do mundo. O orgulho de engenheiros e operários de terem sido da Lisnave alimenta emotivamente uma memória que projecta o passado no presente. O encerramento do estaleiro, no ano 2000, e o seu abandono e degradação no presente, chocam de tal modo com os “tempos gloriosos” da Lisnave que são genuínas a mágoa e a recusa da realidade: o estaleiro de Almada, a cidade dentro da cidade, encerrou mesmo?
Como poderia ter encerrado se os operários ainda sentem o odor do aço a ser transformado em cascos de navios gigantes e se ainda há pouco o petroleiro Paola I foi reparado...e o Kong Haakon VII, parcialmente destruído num incêndio em África, foi cortado em 3 e heroicamente reconstruído na doca 13...?
O pórtico gigante, de cor vermelha, da doca 13, com a capacidade para içar 300 toneladas, assiste, impotente, nos seus 65 m de altura, a esta tragédia: um estaleiro, tão presente na memória coletiva dos almadenses, sem sinais de operários nem de navios nas docas, habitado somente pelas pinturas ruprestres dos graffiters e pelo murmúrio das gaivotas, tão senhoras dos seus 300 mil metros quadrados...Um estaleiro repleto de solidão, com os edifícios enferrujados, onde o silêncio sepulcral só é interrompido pelo ranger de uma porta, o tilintar das vidraças partidas e dos estores desconjuntados ou o pingar lamurioso da chuva infiltrada nas paredes. Até o belíssimo e misterioso edifício, de 8 andares, dos administradores, o Palácio de Inverno, na voz dos trabalhadores, outrora alcatifado a rosa, é a imagem da desolação, uma sombra a enegrecer o tempo do império Lisnave. Ainda que igualmente despidas, as oficinas, pela dimensão e pela permanência do cheiro a óleos queimados, desperdícios e restos de limalha, evocam-nos, em cada sombra, os operários de fato-macaco e capacete.
Nas ruínas do estaleiro continuarão a aparecer trabalhadores-sombra, imaginados aqui e acolá pela memória de uma cidade inteira. No fim, permanecerá o pórtico, símbolo identitário da maior epopeia industrial do país.
Carlos Abreu
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