O «ALMIRANTE SEM MEDO» E O CERCO AO PALÁCIO DE SÃO BENTO
No dia 12 de novembro de 1975, em pleno Processo Revolucionário em Curso (PREC), uma manifestação, constituída maioritariamente por trabalhadores da construção civil em luta pela assinatura do contrato coletivo de trabalho, cercou o Palácio de São Bento, onde decorriam os trabalhos da Assembleia Constituinte.
Os manifestantes, calculados em cerca de 100 000, segundo a imprensa da época, impediram os deputados de sair durante 36 horas. Também a residência oficial do Primeiro-Ministro, contígua ao Palácio de São Bento, foi controlada, mantendo sequestrado o Chefe do Governo Pinheiro de Azevedo (1917 – 1983).
Militar de carreira, o Primeiro-Ministro do VI Governo Provisório, que assumira funções há pouco mais de dois meses, e que ficou conhecido como o «Almirante sem Medo», pela sua conduta destemida e pela sua capacidade de enfrentar as situações mais inesperadas e complicadas, no dia seguinte acabaria por ser libertado pelas tropas do Copcon – Comando Operacional do Continente, espécie de braço armado da revolução, associado a Otelo Saraiva de Carvalho e a militares da extrema-esquerda.
Três dias depois, à saída do Palácio de Belém, após uma reunião com o Presidente da República Costa Gomes, Pinheiro de Azevedo prestou declarações à imprensa informando que fora comunicar a Costa Gomes que, ante a gravidade da tensão vivida um pouco por todo o país, tomara a decisão de autossuspender-se, isto é, que o seu governo entrava em greve. E acrescentou: «Estou farto de brincadeiras! Fui sequestrado. Já duas vezes. Não gosto de ser sequestrado. É uma coisa que me chateia.»
Perante o insólito da situação, um jornalista questionou: «E agora?» Fiel ao seu estilo, o Primeiro-Ministro retorquiu: «Eh pá, agora vou almoçar!»
Figura pitoresca, Pinheiro de Azevedo deixou para a História de Portugal, após o 25 de abril, nos tempos agitados do PREC, outras frases inesquecíveis. Depois de ter sido sequestrado e de ser acusado de fascista, afirmou: «Vão bardamerda mais o fascista!». Uns dias antes, a 9 de novembro de 1975, estava ele a discursar num comício no Terreiro do Paço, quando, no meio do povo que o ouvia, uma bomba de gás lacrimogéneo rebentou, junto ao Ministério da Justiça, na esquina da Rua do Ouro. Houve gritos, correria, fogo, uma fumarada por cima da multidão, tiros, mas o Primeiro-Ministro não largou o microfone: «O povo é sereno, o povo é sereno, ouçam. Ninguém arreda pé! Ninguém arreda pé! Tenham calma. Não há fogo. É apenas fumaça. É só fumaça. Deixem-me terminar, deixem-me terminar. Atenção. São só dois minutos para eu finalizar...»
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