A mesa está posta há vinte anos
Os pratos acumulam uma camada fina de pó
Eu parei de contar os dias, os danos
E aprendi a ficar completamente só
Ninguém bate na porta, o trinco enferrujou
E aquela criança que chorava... acho que a lágrima secou
Percebi que sangrar fazia muita sujeira
Então troquei minha pele por essa madeira
Não sinto mais nada quando me tocam a mão
Sou apenas mobília no meio do salão
Eu criei vocês dois pra me fazerem companhia
Modelei cada traço do rosto outra vez
Para nunca esquecer
Eu amo vocês
Eu amo vocês,
Vocês não respiram, mas nunca vão embora
O abraço é rígido, mas me segura agora
É o amor que não escolhi ter
Vou transformar quem amo em marionetes
Pra nunca mais ver ninguém morrer
Eles dizem que eu perdi a humanidade
Que meu peito é oco, que não bate verdade
Mas olhem pra eles, apodrecendo no chão
Enquanto eu me mantenho perfeito nessa solidão
Meus dedos não tremem, meu rosto não cai
Eu sou a obra-prima que nunca se vai
[Ponte] [Intenso, agudo, quase gritado]
Eu quero ser eterno! Eu engano a morte
Me cubram de cera, me tranquem aqui
Foi a única forma que eu descobri
De ter o meu pai e a minha mãe
Numa cena que o mundo não decompõe
O ponteiro arrasta, pesado, no mostrador da parede
Cada segundo é uma gota de veneno que me cede
Estou sentado à porta, olhando a estrada deserta
A promessa de retorno é uma ferida aberta
A senhora me diz para ter paciência
Mas vejo nos olhos dela
De que eles partiram pra nunca mais voltar
Deixaram um filho sozinho
As estações mudam, a areia vermelha cobre o chão
E meu peito aperta nessa ingênua ilusão
Eu odeio esperar, é o que sempre repito
Enquanto a angústia desenha meu rito
Se a carne é fraca e sangra na despedida
Eu buscarei outra forma de vida
Se o calor humano um dia se apaga
Eu vou talhar a cura pra essa praga
Peguei o formão, a madeira e a linha
Pra criar a família que não era mais minha
(A arte suprema é o que dura pra sempre
Sem apodrecer, sem dor que se sente
Troquei minha pele por casca e verniz
Um corpo que não chora, que não é infeliz
Não quero batidas, nem sangue, nem ar
Só a beleza estática que não vai murchar
Eu sou o artesão da própria solidão
Blindando com cedro o meu coração)
Eu fiz o Papai, eu fiz a Mamãe com minhas mãos
Moldei seus sorrisos em troncos vãos
Prendi em meus dedos os fios sutis
Tentei encenar um momento feliz
Eu os fiz me abraçar, senti a madeira em meu dorso
Mas era um carinho forçado, um esforço
Pois quando soltei as cordas, num baque no chão
Eles caíram inertes, sem vida, sem ação
O abraço desfez-se, ficou apenas o oco
E ali percebi que eu estava ficando louco
Então arranquei de mim tudo que era mortal
Me tornei a própria obra, o design final
Um núcleo pulsante num peito travado
Por cem marionetes eu sou rodeado
Um exército vermelho banhado em veneno
Pra esquecer o menino, aquele pequeno
Que um dia sonhou com a volta dos pais
Hoje sou monstro, e não sinto mais!
(A arte suprema é o que dura pra sempre
Mas no fundo do cerne, a alma ainda sente
Troquei minha pele por casca e verniz
Mas nunca serei realmente feliz
Não quero batidas, nem sangue, nem ar
Mas tudo o que eu quis foi alguém pra me amar
Eu sou o artesão da própria solidão
Tentando preencher essa vasta amplidão)
E agora eu vejo as duas figuras no fim
O Pai e a Mãe avançam pra mim
Eu vejo a lâmina, mas não vou desviar
É a única chance de enfim me curar
No abraço de lenho, eu fecho o olhar
Não preciso mais esperar...
Não preciso mais esperar...
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