Minha filha sempre sonhou com uma festa de aniversário. Nunca pediu luxo, nem castelos infláveis, nem palhaços, nem lembrancinhas caras. Ela queria bolo de chocolate, balões cor-de-rosa e as primas reunidas. Queria música alta, doces espalhados por uma mesa colorida e a atenção que toda criança merece uma vez por ano: no próprio dia.
Durante meses, ela desenhou convites à mão. Copiou nomes com lápis de cor e escreveu com carinho em folhas que dobrava com cuidado. Colava adesivos em cada canto e, quando terminava, corria até mim com os olhos brilhando, como se estivesse me entregando uma joia. E era. Era o mundo dela, embalado em papel.
Eu trabalhava até tarde, juntando o pouco que conseguia para fazer acontecer. Economizei cada centavo: deixei de comprar sapatos novos, cortei meu próprio cabelo, recusei convites para sair. Era o tipo de sacrifício que nenhuma mãe chama de sacrifício. Para mim, era investimento. Em sorrisos. Em memórias.
Foi então que minha irmã apareceu.
Como sempre, sem pedir licença. Entrou com aquele salto alto arranhando meu piso de madeira e o celular preso entre o ombro e a orelha. Tinha pressa, como se o mundo dependesse da pressa dela.
— Preciso da sua casa no sábado, tá? Vamos fazer uma comemoração pros nossos pais. Trinta anos de casados, lembra?
— Mas é o aniversário da Luna — respondi, ainda segurando um dos convites que minha filha havia acabado de terminar.
Ela riu.
— Ai, Ana… pelo amor de Deus. É só um aniversário de criança. Ela supera. Nossos pais merecem mais do que isso, não acha?
— Na minha casa?
— Claro. A decoração já tá toda organizada. Vai ser lindo. Aliás, a mamãe já concordou. Disse que era o mínimo depois de tudo que eles fizeram por você.
Eu congelei. Meu corpo inteiro ficou frio, como se eu tivesse mergulhado num lago gelado. Ela não perguntou. Ela impôs. E minha mãe, como sempre, assinou embaixo.
Luna entrou na sala pouco depois. Sorriu para a tia, que sequer notou. Tinha uma flor de papel presa no cabelo, uma daquelas que fizemos juntas. Quando ela viu meu rosto, perdeu o brilho.
Tentei explicar da melhor forma possível. Disse que talvez a gente adiasse só um pouquinho. Que faríamos tudo no fim de semana seguinte. Que ela poderia escolher dois sabores de bolo, se quisesse.
Ela assentiu, em silêncio. Não chorou na frente de ninguém.
Mas naquela noite, depois que a casa escureceu e os barulhos cessaram, fui até o quarto dela e a encontrei encolhida, abraçada a um dos convites. Dormia, mas as pálpebras ainda estavam molhadas.
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