"Neste ano, eu percebi que o ‘não sei até onde posso chegar’ me dá mais medo, em uma razão proporcionalmente inversa, em relação a até onde o outro pode chegar.
Percebi que o controle sobre mim mesmo, por mais difícil que possa parecer, após algum tempo de terapia, é muito menos difícil e menos ansiolítico do que a imprevisibilidade alheia.
Vi que alguns códigos éticos que pensava que fossem incorruptíveis, firmes como lentes de safira, não passaram de cristal fino quando atirados ao chão.
E esses estilhaços estão cortando muita gente. Eu não sangro, como muitas pessoas estão por essa quebra, mas eu choro por esse sangue.
A minha dor é melancólica, é de incapacidade. A dor do outro é factível, é palpável, é na pele.
É difícil pra mim ver que símbolos cunhados em areia de deserto valem mais do que a carne humana, quando os dedos de um entrelaçam os de outro.
Para o que se vive? No que essa esperança, se assim posso chamar isso, cega, corrói a humanidade que existe dentro de nós.
O mundo não ficou pior neste ano. Ele sempre foi assim. A diferença é que, agora, isso chegou até nós. Está aqui, do nosso lado, agonizando aos nossos olhos, enquanto abutres estão à espreita, ao mesmo tempo em que a humanidade chora.
Não sei mais o que aguardar, o que pensar. Só sei que talvez tenha sentido todas as emoções que já conheci somente neste ano e que aprendi algumas novas. Infelizmente, a maioria delas é negativa.
Mas também sei que a humanidade está adormecida em muitos corações cálidos, que neste momento, usam a sua energia em prol de apenas se manterem vivos e logo mais, brilhar-se-ão.
Só sei que hoje entendo como o absurdo acontece e sei como o mais sublime pode ser a chave para resistir.
Não são mais tempos modernos, são tempos difíceis, como nunca imaginei e nem poderia. Mas aqui estou, caminhando e cantando e seguindo a canção. Na certeza de que somos todos iguais, braços dados ou não.
Não sei mais o que esperar, mas tenho esperança que, como quase tudo, também foi ressignificada."
Информация по комментариям в разработке